O Leão

De raiva o Leão rúgio 
O Leão chorou de raiva 
Tinha raiva da sua covardia 
Raiva de ser tão grande 
quando se sentia pequeno 
Tinha raiva do seu pelo impreciso 
da sua juba, na verdade 
Tinha raiva de ser como era 
Tinha raiva de ser covarde 

Postes, paredes e árvores.

Me deu vontade de jogar tudo pro alto e me jogar de lá. Por falta de coragem de socar as faces que me incomodavam eu soquei a parede, querendo feri-los, eu me feri. E eles não viram meu sangue escorrer, pelo menos. Eu não derramei lágrimas, não havia motivo, mesmo com toda aquela raiva... Raiva de mim. Soquei todas as paredes pelo caminho, árvores e postes não se livraram também. Minha mão está ferida, fui eu mesmo que me feri, por não ter coragem de ferir os outros.
"É demasiada essa vontade de não estar aqui... Essa mesma vontade de estar ai, seja ai onde for, do teu lado... em cima e por baixo... E nos teus braços... E tu nos meus.

Tenho    sono   e        não quero dormir
Tenho    livros e        não quero ler
Tenho    filmes e        não quero ver
         Músicas que não quero ouvir

Tenho um abraço ansioso pelo calor dos teus braços.
Tenho nos lábios o calor e vontade de me queimar nos teus.

Tenho fome... De ti.
Tenho ânsia... Da solidão."

Flores de Plástico

Mesmo sabendo que são de plástico, eu cultivo flores num vazo. Eu minto pra mim, mesmo sabendo que não é verdade, eu acredito. Um "Eu te amo." Como quando eu era criança, tomando banho de mangueira, apontava ela pro céu, apertava um pouco e fingia ser chuva. Como quando botava uma latinha no pneu da bicicleta pra fazer barulho e fingia ser uma moto. Ou quando canto no banheiro de olhos fechados e me imagino num palco gigante cantando pra milhares de pessoas com uma banda amada. Quando me jogo na cama de olhos fechados e, por menos de um segundo, pairo no ar fingindo estar me jogando de um penhasco para a morte. Morre um dia agora, eu me jogo na cama e fecho os meus olhos, com o vento da janela aberta eu tenho meu ar condicionado, com meu lençol de pano de rede eu tenho um abraço. E no vaso cultivo flores de plástico, "elas não morrem."